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Como anda o seu relacionamento afetivo?
 
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01/09/2009

Como anda o seu relacionamento afetivo?

Especialista discute essa questão levantada pela enquete do Sis.Saúde

Na última enquete realizada pelo SIS.Saúde, perguntou-se “Como anda o seu relacionamento afetivo?”. As repostas podem ser verificadas no gráfico abaixo.


Pelas respostas à enquete, observa-se que a maioria das pessoas indicou estar insatisfeita com seu relacionamento conjugal (48%). Apenas uma minoria revelou satisfação com esse relacionamento (22%).

Quais os motivos?

O relacionamento conjugal é o principal vínculo afetivo na vida adulta, pois, provê a estrutura primária da família e a possibilidade da intergeracionalidade, ou seja, da obtenção de filhos (LARSON e HOLMAN, 1994). Por ser tão significativo, apresenta uma série de consequências à vida das pessoas.

É importante frisar que o Código Civil brasileiro, de 2002, considera como relacionamento conjugal aquele que apresenta união estável, oficializada ou não. Por sua vez, o relacionamento estável é aquele constituído entre duas pessoas acima de 18 anos que se percebem unidas com o objetivo da convivência comum para a constituição familiar. Assim, é necessário que o casal se apresente socialmente como “casados” e que as pessoas da convivência também as percebam dessa maneira. Portanto, é um relacionamento pautado na percepção subjetiva que depende do casal e das pessoas que se relacionam com esse casal (CARVALHO NETO e FUGIE, 2002).

Nas sociedades ocidentais, normalmente, as pessoas unem-se por “amor”. O que significa que iniciam o namoro a partir de um processo de “apaixonamento”. Tal processo nada mais é que uma idealização da pessoa amada, que significa que as pessoas enfatizam as características que elas consideram como positivas do ser amado e observam menos as características que elas poderiam caracterizar como negativas.

Esse processo é denominado de “percepção seletiva”. São filtros na percepção que fazem as pessoas destacarem determinadas características das pessoas em determinados momentos. O processo de apaixonamento cria filtros seletivos na percepção que fazem as pessoas observarem principalmente os aspectos que elas julgam como positivos. Nesse sentido, o ser amado torna-se uma pessoa “quase ideal”, repleta de aspectos positivos.

Contudo, o processo de apaixonamento possui um tempo de existência. Quando as pessoas se casam, ou seja, passam a viver o dia-a-dia, em geral, elas ultrapassaram um tempo de namoro, quando o processo de apaixonamento já começa a arrefecer.

Adicionalmente, no casamento, os aspectos do dia-a-dia fazem com que o processo de apaixonamento comece a se enfraquecer mais ainda. Desse modo, há uma modificação na percepção seletiva dos cônjuges, em que eles passam paulatinamente a observarem os aspectos negativos do ser amado. Inicia-se, portanto, um processo de desencantamento com o ser amado e com o casamento.

Kayser (1993) estudou o processo de desencantamento com o relacionamento conjugal, ou seja, da perda da idealização inicial ao relacionamento, o qual as atribuições ao cônjuge são principalmente positivas; e indicou que esse processo comporta três fases:

  • Primeira - ocorre o desapontamento com o cônjuge; a consciência de que o relacionamento não é o esperado; as dúvidas a respeito da escolha do cônjuge e da decisão de ter se casado; a tentativa de mudar a si mesmo, de manter o amor e atratividade.
  • Segunda - há o sentimento de desolação; a avaliação dos custos e benefícios do relacionamento; a consciência de que as necessidades pessoais e sociais não estão sendo mais respondidas; e pensamentos sobre a pouca importância do cônjuge para a vida.
  • Terceira - existem sentimentos de ressentimento, amargura, hostilidade e indignação; atribuições mais negativas que positivas ao cônjuge; confrontação e evitação do cônjuge; e diminuição da sexualidade.

Nesse sentido, pode-se dizer que o início de um relacionamento conjugal é acometido de um processo de “desilusão” com o ser amado e com o relacionamento. É um momento de grandes conflitos, em que ainda impera, concomitantemente, o sentimento de “amor” (ou melhor dizendo, de apaixonamento) e a percepção dos aspectos negativos indesejáveis do ser amado. Passa-se a observar mais o que o ser amado apresenta como negativo que positivo pelo processo de seleção perceptiva, podendo gerar grandes sentimentos de desesperança com o relacionamento.

O que ocorre depois da desilusão?

Pesquisa de Huston e Houts (1998) ampliou a compreensão a respeito. Estudando casais em longo prazo, os autores observaram que o processo de desencantamento ocorre, principalmente, nos dois anos iniciais dos relacionamentos, em média. Após esse tempo, os relacionamentos adquirem maior ajustamento, porém, com menor tônus afetivo.

O ajustamento conjugal pode ser definido como a interação dinâmica entre cônjuges, que pode ser mais adaptativa ou mal-adaptativa, gerando níveis de satisfação (SPANIER, 1976).

Assim, decorrido o tempo de “desencantamento” com o cônjuge e com o relacionamento, inicia-se uma nova fase. Nessa fase, começa a surgir o que se atribui como “amor”. Há uma percepção mais realística de quem é o ser amado e uma aceitação de suas características, tanto as consideradas positivas como as negativas. Obviamente, se as características negativas podem ser compreendidas como aceitáveis. O relacionamento ingressa, então, em uma fase de acomodação e adaptação.

Contudo, ao longo do curso dos relacionamentos, se houverem muitos fatores estressores, individuais ou contextuais, estes passam a contribuir com o mal-ajustamento entre os casais, gerando níveis de menor satisfação. O que significa que os fatores estressores, difíceis e conflituosos, mesmo que externos ao casal, são deletérios ao relacionamento; e muito mais se tais fatores forem internos ao casal (como, por exemplo, brigas devido à educação dos filhos, ou por interferências familiares).

Segundo Fincham, Harold e Gano-Phillips (2000), os conflitos vivenciados ao longo do relacionamento tendem a intensificar as atribuições negativas e a atribuição causal e de responsabilidade dos conflitos ao cônjuge, levando a expressões afetivas mais negativas. O que revela que os conflitos (sejam as brigas expressas ou não) entre o casal fazem com que haja uma tendência de responsabilizar o outro pela brigas e aspectos negativos do relacionamento, priorizando-se o que o outro apresenta como negativo. Nesse sentido, os conflitos, se constantes, podem ir minando os relacionamentos.

Snyder, Heyman e Hayne (2005) indicaram que os conflitos tendem a se tornarem um padrão repetitivo devido à seleção perceptiva dos eventos negativos em detrimento dos positivos, conduzindo os relacionamentos para mal-adaptativos. Acrescentando a essa questão, Feeney e Noller (2002) sugeriram que frequentes conflitos e afetos negativos consequentes diminuem as trocas afetivas e conduzem a comportamentos de retirada do relacionamento, ou seja, de negligência e desatenção, fazendo com que as necessidades individuais de afeto não sejam respondidas, criando mais comportamentos hostis e discórdias. Dessa maneira, segundos essas autoras, os conflitos seriam continuados para alguns casais, os que apresentassem diminuições de trocas afetivas.

Desse modo, os estudos na área revelaram que, após a fase inicial do relacionamento de “desencantamento”, que dura em torno de dois anos, há a possibilidade de dois cursos: relacionamentos adaptativos, em um processo de acomodação; e mal-adaptativos, em um processo de desafeição.

A qualquer momento, um relacionamento pode ingressar em um curso de desafeição. Basta que conflitos entre o casal sejam desencadeados. Tais conflitos podem ser desencadeados por eventos estressores, tais como: problemas no trabalho, chegada de filhos, problemas familiares, falta de recursos, entre outros.

Também, um relacionamento que passe por uma fase conflituosa, assim que resolvidos os conflitos, pode ingressar em uma fase de maior adaptação e satisfação entre os cônjuges. O que coloca em pauta que a maioria dos relacionamentos possui fases, mais satisfatórias ou menos satisfatórias, uma pode ser sucedida da outra. Porém, como há uma tendência dos conflitos desencadearem um processo contínuo de conflitos, cada fase de conflitos pode colocar em risco o relacionamento conjugal.

Repercussões para a saúde

Por desencadearem expressões afetivas e sentimentos positivos mútuos, os relacionamentos adaptativos são protetivos à saúde (WILSON e OSWALD, 2005). Em estudo longitudinal, Miller, Niehuis e Huston (2006) encontraram que a expressão afetiva positiva protege a idealização, ou seja, as atribuições mais positivas ao cônjuge, e mantem a intimidade no relacionamento. O que gera relacionamentos com melhor ajustamento e satisfação.

Entretanto, os relacionamentos com maior tendência de serem mal-adaptativos, insatisfatórios, são deletérios à saúde por ocasionarem estresse continuado por causa dos conflitos (FINCHAM e BEACH, 1999). O estresse é um estado de excitação por exigências socioambientais acima das capacidades individuais de responder a tais exigências, vulnerabilizando a saúde, se contínuas (ANESHENSEL, 1992). Os conflitos representam o principal fator de vulnerabilidade do relacionamento conjugal e da saúde psicológica, devido ao desencadeamento do estresse, que leva a sintomas ansiosos e depressivos em última instância (FINCHAM, 2003).

Portanto, os conflitos continuados no relacionamento conjugal afetam, em primeiro lugar, a saúde psicológica, podendo chegar a afetar também a saúde física.

Considerações finais

Normalmente, os filmes e os contos de fada finalizam com o “pedido de casamento” e mostram finais felizes, permitindo a imaginação das pessoas concluírem que os casais “viveram felizes para sempre”. Mas essa não é a realizadade da maioria dos casamentos. Este é envolto em uma processualidade, que começa com o desencantamento (desapaixonamento) com o cônjuge e com o relacionamento, podendo tornar-se mais adaptativo ou mal-adaptativo. Em geral, ocorrem fases adaptativas (satisfação) e mal-adaptativas (com mais conflitos). Contudo, as fases de conflito tendem a gerar novas fases de conflito, podendo colocar um fim ao relacionamento.

A partir de dados coletados na área e dos estudos da pesquisadora, algumas dicas podem ser oferecidas aos casais:

  • Lembrem-se que o processo de desencantamento inicial com o cônjuge é comum a todos os casais e é necessário para se conhecer melhor quem está ao lado. Tenham em mente que essa fase passará e que fases muito felizes poderão vir com o prosseguimento do relacionamento.
  • Não acreditem que um filho poderá “resolver” os conflitos de um relacionamento. Normalmente, os filhos representarão mais possibilidades de conflitos aos casais devido às mudanças em suas vidas e também por causa dos desacordos que podem surgir com os fatores da educação. Escolham ter filhos planejadamente, na certeza de que o relacionamento tem fases mais estáveis que instáveis. Espere pelo menos uns dois anos de relacionamento conjugal para terem filhos.
  • Nunca, em hipótese nenhuma, usem palavras ofensivas ou atos agressivos em relação ao companheiro durante uma briga. Tais comportamentos dificilmente serão esquecidos, geram mágoas profundas, e poderão levar ao relacionamento ao perigo de rompimento.
  • Em uma discussão, comentem sobre os sentimentos, do tipo “estou magoado(a) com sua atitude...”; “estou triste com o que você me disse...”; ao invés de acusar o companheiro (você é isso ou aquilo..).
  • Lembrem-se que os conflitos devem ser resolvidos sempre, mas resolvidos com respeito ao ser amado que está ao lado. Também se deve exigir respeito do ser que diz te amar.
  • Tentem finalizar os ciclos de conflitos quando estes se instalarem. Por vezes, gestos simples são suficientes, tais como: um presente fora de hora, uma viagem, um final de semana especial, de acordo com a imaginação de cada um.

 

Referências

CARVALHO NETO, I.; FUGIE, É. H. Novo Código Civil comparado e comentado: direito de família (V. 6). Curitiba: Juruá, 2002.

FEENEY, J. A.; NOLLER, P. Understanding marriage: Developments in the Study of Couple Interaction. Cambridge: Cambridge University, 2002.

FINCHAM, F. D. Marital conflict: Correlates, structure, and context. Current Directions in Psychological Science, v. 12, n. 1, p. 23-27, 2003.

FINCHAM, F. D.; BEACH, S. R. H. Conflict in marriage: Implications for working with couples. Annual Review of Psychology, Anual, p. 47-48, 1999.

FINCHAM, F. D.; HAROLD, G. T.; GANO-PHILLIPS, S. The longitudinal association between attributions and marital satisfaction: Direction of effects and role of efficacy expectation. Journal of Family Psychology, v. 14, n. 2, p. 267-285, 2000.

HUSTON, T. L.; HOUTS, R. M. Psychological infrastructure of courtship and marriage: The role of personality and compatibility in romantic relationship. En T. N. BRADBURY e R. L. WEISS (Eds.), The developmental course of marriage (pp. 114-151). Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

KAYSER, K. When love dies: The process of marital. New York: Guilford Press, 1993.

LARSON, J. H.; HOLMAN, T. B. Premarital predictors of marital quality and stability. Family Relations, v. 43, p. 228-237, 1994.

MILLER, P. J. E.; NIEHUIS, S.; HUSTON, T. L. Positive illusions in marital relationships: A 13-year longitudinal study. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 32, n. 12, p. 1579-1594, 2006.

SNYDER, D. K.; HEYMAN, R. E.; HAYNES, S. N. Evidence-based approaches to assessing couple distress. Psychological Assessment, v. 17, n. 3, p. 288-307, 2005.

SPANIER, G. B. Measuring dyadic adjustment: New scale for assessing the quality of marriage and similar dyads. Journal of Marriage and the Family, v. 38, n. 1, p. 15-29, 1976.

WILSON, C. M.; OSWALD, A. J. How does marriage affect physical and psychological health? A survey of the longitudinal evidence. IZA - Discussion Paper Series, v. 1619, p. 1-29, 2005.


Autor: Marli Appel - Doutora em Psicologia - PUC/RS
Fonte: SIS.Saúde

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