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Saiba mais sobre a síndrome da respiração bucal
 
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17/09/2009

Saiba mais sobre a síndrome da respiração bucal

Entrevista especial com Gilda Souto – Ortodontista

Gilda Souto é ortodontista e especialista em respiração bucal, tema da entrevista a seguir, realizada com a profissional pela equipe do SIS.SAÚDE.

O que vem a ser a respiração bucal?

É a suplência do oxigênio por via oral, quando o indivíduo está impedido da função nasal. Poderá ser por fator patológico-obstrução das vias nasofaríngeas ou por alterações ambientais temporárias, por exemplo, a prática da natação que requer temporariamente uma respiração bucal sem ser uma patologia.
 
Como patologia, a respiração bucal é uma disfunção respiratória que ocorre sempre que houver um impedimento obstrutivo da via aérea nasofaríngica,  ocasionada, ou por hipertrofia das adenóides, ou hipertrofia das amígdalas, ou desvio de septo e traumatismos faciais, como também as alergias que provocam as hipertrofias das adenóides. Essas disfunções ocasionam uma obstrução nasal que faz com que a pessoa passe a apresentar, na maior parte do tempo, a respiração pela boca em detrimento da respiração pelo nariz.
 
Os quadros alérgicos apresentam um papel fundamental no desenvolvimento da hipertrofia da adenóide, que é uma das causas principais da síndrome da respiração bucal. Devido à urbanização das sociedades, ocorreram, possivelmente, respostas alérgicas do organismo nessa adaptação ambiental e houve mudanças também no modelo respiratório, com maior prevalência da respiração bucal. Em situações de processos alérgicos, como rinites e asma, ocorrem mudanças no modelo funcional respiratório de nasal para bucal. Pois, em geral, os respiradores bucais demonstram alta positividade a alergenos, predominantemente os ácaros e o fumo passivo. Fatores secundários, como a obesidade, o período da amamentação e a história de hábitos bucais danosos persistentes à primeira infância, influenciam nesse modelo respiratório.
 
Qual a faixa etária que mais é acometida por essa patologia?
 
Geralmente as crianças antes da fase puberal são as mais afetadas. Ademais, a respiração bucal é mais frequente no gênero masculino. Pois, a obstrução na via aérea faringeana apresenta um efeito diferente nos gêneros, sendo mais prejudicial no masculino.
 
Quais os comprometimentos que a respiração bucal pode ocasionar, especialmente em crianças?
 
A respiração bucal é uma adaptação a uma deficiência funcional  ocasionada  por outro evento patológico, como respondi anteriormente - hipertrofia das adenóides, desvio de septo, hipertrofia das amígalas, traumatismo. Portanto, é uma síndrome.  Síndrome é um conjunto de sintomas e sinais que caracterizam uma doença. Como síndrome, poderá interferir na morfologia facial e na morfologia dentoalveolar, poderá também ser um agente desencadeador da apnéia obstrutiva do sono, igualmente interfere na postura corporal e na qualidade de vida. 
 
Figura 1: Face típica do respirador bucal
Fonte: FIinkelstein et al., 2000.
 
Em geral, o indivíduo desenvolve uma face classificada como “face longa”, como demonstrado na figura acima, como o sinal mais visível. Mas, há uma série de alterações associadas, tais como: a posição da cabeça para frente e abdução escapular, ombros colocados para frente, rotação mediana dos ombros, flexão da cabeça, assimetria de ombros e cabeça pendida para a lateral, na questão postural. Por exemplo, a alteração postural ocorre como uma tendência compensatória para aumentar a extensão da via aérea faringeana na busca de facilitar a respiração, porém, esse mecanismo compensatório não é suficiente para prover uma respiração normal.
 
Acrescente-se a essas informações o fato de que os lábios hipotônicos, a força da língua, a função mastigatória e o bruxismo estão associados a essa síndrome. Ademais, pode existir uma série de comprometimentos dentários, o que é denominado de má oclusão. Estudos encontraram, associadas a essa síndrome, as seguintes más oclusões: maior sobressaliência, maior altura dento alveolar, mordida cruzada, mordida aberta anterior, apinhamento superior e arco dentário inferior mais curto, entre outros aspectos. O que irá comprometer a estética facial.
 
Outro aspecto que é importante frisar é que a qualidade de vida dos respirados bucais é significativamente prejudicada. A respiração bucal revela-se mais intensa durante o sono, prejudicando a qualidade do sono. Como também, há uma maior dessaturação do oxigênio no sangue.
 
O sono insatisfatório, a sonolência diurna consequente e a dessaturação do oxigênio, que afetam o desempenho cerebral, podem contribuir para uma mudança no desempenho cognitivo e escolar, bem como na menor capacidade de atenção e maior estresse emocional manifestado por comportamentos agressivos, aspectos que também são observados em respiradores bucais.
 
Quais os sinais e sintomas que podem fazer com que se identifique essa patologia?
 
Como falei anteriormente, a respiração bucal é uma síndrome. Não existe relato de respirador bucal 100%, portanto é considerada  respiração bucal quando existe uma maior prevalência dessa função bucal do que a função nasal.
 
Reconhecê-la num exame clínico odontológico, que é o meu ofício, seria através da  morfologia dentofacial, do vedamento labial, perguntas quanto ao sono, perguntas sobre eventos infecciosos da garganta, sinusites e rinites. Esses aspectos levam a montar um diagnóstico compatível com a disfunção respiratória. Assim, a pessoa será encaminhada a um médico otorrinolaringologista, o qual fará o exame necessário para elaborar o diagnóstico preciso dessa patologia como também a sua causa.
 
É importante colocar que se a respiração bucal não for tratada adequadamente antes da fase puberal resultará em alterações nas vias aéreas superiores, deformidades dentárias, craniofaciais e posturais permanentes, além de distúrbios psicossociais severos. No adulto, pode ser encontrada, além dessas deformidades, uma tendência ao envelhecimento facial.
 
O que demonstra a severidade e a complexidade dessa síndrome, sendo necessária e prioritária a intervenção no padrão disfuncional da respiração na primeira infância. O que coloca em voga a necessidade de seu diagnóstico e tratamento adequados.
 
Como os pais ou uma pessoa deve fazer se apresentar alguns desses sinais e sintomas? Quem procurar?
 
A respiração bucal, como patologia, deve de ser diagnosticada e tratada pelo médico, que irá descobrir a causa e tratar do impedimento obstrutivo. Quando houver sido sanada ou equilibrada a causa dessa disfunção respiratória, será necessária uma reorganização do que faz parte do sistema respiratório, como arquitetura das arcadas dentárias, musculaturas faciais, musculatura da língua, postura, etc. Portanto, o tratamento é multidisciplinar, pois nenhuma terapêutica individual será capaz de retratar as alterações ocasionadas por essa síndrome. Assim, um oftalmologista, um cirurgião dentista, um ortopedista funcional,  um ortodontista facial, um fonoaudiólogo e um fisioterapeuta poderiam participar do tratamento, dependendo da necessidade de cada caso e da severidade dos comprometimentos relacionados. Pois, como comentado, a síndrome da respiração bucal poderá apresentar uma série de comprometimentos com graus variados de severidade. Assim, o quadro de profissionais necessários ao tratamento dependerá de cada caso específico.
  
Se essa patologia causa tantos transtornos, não deveria haver mais informações a respeito?
 
Acredito que existam informações a respeito, mas também a dificuldade de se diagnosticar e tratar dessa disfunção.  A função respiratória, no organismo, apresenta uma dinâmica vital pelas narinas. Os compartimentos que enriquecem, direcionam, equalizam o ar estão nas vias nasofaríngeas, isto é uma verdade biológica. Como o ser humano tem esta capacidade maravilhosa de adaptação, acredito ser importante investigações mais profundas a respeito de como reorganizar a função respiratória, ou como conviver com a disfunção.
 
 
Fonte da figura: FINKELSTEIN, Y.; WEXLER, D.; BERGER, G.; NACHMANY, A.; SHAPIRO-FEINBERG, M.; OPHIR, D. Anatomical basis of sleep-related breathing abnormalities in children with nasal obstruction. Arch. Otolaryngol. Head Neck Surg., v. 126, p. 593-600, 2000. 

 


Autor: Equipe SIS.SAÚDE
Fonte: Gilda Souto, Ortodontista, Especialista em Respiração Bucal

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