Todos os dias, toneladas de resíduos ganham um novo destino graças ao trabalho silencioso de catadores e cooperativas de reciclagem. Mais do que recolher materiais descartados, esses trabalhadores ajudam a reduzir impactos ambientais, movimentam a economia circular e desempenham papel estratégico na agenda climática. Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, um projeto desenvolvido no Rio Grande do Sul busca fortalecer justamente quem atua na linha de frente dessa transformação.
Desenvolvido pelo Sebrae RS, o Programa Pró-Catadores oferece apoio técnico a cooperativas de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis por meio de consultorias especializadas, com foco em gestão, melhoria de processos internos, fortalecimento institucional e ampliação de parcerias.
A partir de um termo de cooperação firmado com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA), o projeto também passa a contar com acompanhamento estratégico da secretaria, contribuindo para a qualificação da metodologia e para o monitoramento da implementação das ações junto às cooperativas participantes.
Segundo a gerente de Políticas Públicas do Sebrae RS, Fernanda Dall'Agnol, o convênio foi celebrado pela importância da articulação estratégica com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, acompanhando a implementação do projeto e contribuindo na conexão das cooperativas com a agenda ambiental do Estado. "O convênio já nasce com a perspectiva de consolidação de uma metodologia, visando a possível expansão do atendimento às cooperativas em âmbito estadual. A intenção é fortalecer uma política contínua de apoio às cooperativas de reciclagem, especialmente considerando o papel estratégico dos catadores na agenda climática e na mitigação dos impactos ambientais", destaca.
Atualmente, três cooperativas participam do acompanhamento piloto do projeto. Uma das principais é a Cooperativa de Catadores e Recicladores de Santa Cruz do Sul (COOMCAT), que já recebe consultorias especializadas e vem apresentando resultados concretos em diferentes áreas.
A SEMA também reconhece as cooperativas e os catadores como atores fundamentais para a efetividade das políticas ambientais e climáticas do Estado. Como explica Walter Souza, chefe da Divisão de Saneamento da secretaria, essas organizações exercem um papel que vai além da triagem de resíduos, atuando também como agentes de educação ambiental, inclusão socioprodutiva e qualificação da gestão municipal de resíduos. "Cada vez mais, os municípios percebem que o fortalecimento das cooperativas é uma estratégia concreta para ampliar a reciclagem, reduzir a disposição final em aterros e avançar na transição para uma economia mais circular e de baixo carbono", afirma.
Na prática, os impactos já começam a ser percebidos dentro das cooperativas participantes. Na COOMCAT, por exemplo, a consultoria administrativa implementou ferramentas de controle financeiro e transparência interna, incluindo demonstrações de resultados trimestrais acessíveis aos cooperados. De acordo com Marilane Poeckel, coordenadora financeira da cooperativa, um dos avanços mais importantes foi a realização, pela primeira vez, do cálculo de depreciação dos equipamentos e veículos utilizados na coleta seletiva. Ela conta que "isso permitiu demonstrar tecnicamente o desgaste estrutural causado pela operação contínua da coleta seletiva municipal, criando argumentos concretos para futuras negociações de reajuste contratual com o poder público".
A cooperativa também passou por reorganização estrutural interna, implantação de sistema gratuito de gestão disponibilizado pelo Sebrae RS e elaboração de um organograma para otimizar funções e fluxos de trabalho. Na área de infraestrutura, o projeto auxiliou na aproximação da cooperativa com a Tecnounisc – Parque Científico e Tecnológico Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) – e na elaboração de laudos técnicos estruturais e elétricos, além do levantamento de demandas prioritárias para futuras adequações da unidade.
Os resultados também se refletem na rotina operacional. De acordo com Marilane, houve um aumento de cerca de 40 toneladas no volume processado nos dois primeiros meses de trabalho. Em Santa Cruz do Sul, a consultoria atuou junto à cooperativa local na implementação das ações e também colaborou na organização de um seminário sobre o tema, realizado com a participação da UNISC e do Sicredi Rio Pardo, parceiros da iniciativa.
Para a SEMA, transformar cooperativas em referências técnicas e institucionais também amplia a capacidade dos municípios de estruturar políticas públicas mais eficientes na área de resíduos sólidos. Souza ressalta que cooperativas qualificadas podem atuar não apenas na triagem, mas também em ações de educação ambiental, conscientização da população e apoio à gestão municipal: "A formalização e a qualificação institucional ampliam as possibilidades de acesso das cooperativas a diferentes fontes de financiamento e apoio, além de criarem melhores condições para contratos de prestação de serviços com os municípios".
Com foco em sustentabilidade, inclusão produtiva e fortalecimento da economia circular, a iniciativa reforça o protagonismo dos catadores nas políticas ambientais e evidencia como ações estruturadas podem gerar impacto social, econômico e ambiental de forma integrada.