Editora da Nature debate no Hospital Moinhos de Vento os desafios de comunicar evidências científicas
Em encontro com jornalistas, Ana Donnelly abordou critérios para avaliar estudos, limites da revisão por pares e cuidados para transformar ciência em informação
Nem toda evidência científica tem o mesmo peso, e um único estudo raramente é suficiente para mudar o consenso sobre determinado tema. A avaliação crítica das pesquisas e os cuidados necessários para transformar seus resultados em notícia foram o centro do encontro "Comunicando a Ciência: das evidências ao storytelling", promovido pelo Hospital Moinhos de Vento nesta segunda-feira (31), em Porto Alegre, para profissionais da imprensa gaúcha.
A conversa com os jornalistas foi conduzida por Ana Donnelly, editora sênior da Revista Nature Mental Health, do Grupo Nature. A especialista apresentou critérios para avaliar a robustez das evidências, passando pelos diferentes desenhos de estudos, pela revisão por pares, pelos conflitos de interesse e pela atenção necessária aos preprints, divulgados antes da avaliação pela comunidade científica.
Segundo Ana, entre a realização de uma pesquisa, sua publicação e divulgação ao público existem diferentes etapas ao longo das quais informações podem ser perdidas ou interpretadas de maneira equivocada. Um dos alertas foi sobre o risco de transformar correlação em causalidade, ou resultados preliminares em conclusões definitivas.
Por exemplo, um estudo observacional que encontra menor mortalidade entre pessoas que consomem mais café não permite concluir automaticamente que "tomar café aumenta a expectativa de vida". Outros fatores podem ajudar a explicar a associação encontrada. Contexto e limitações, portanto, são parte essencial do storytelling científico. "A escolha de palavras pode ser determinante para evitar que resultados preliminares sejam apresentados como certezas ou que tecnologias ainda em investigação sejam tratadas como tratamentos comprovados", destacou.
A editora também reforçou que a publicação em uma revista científica, por si só, não torna uma informação uma verdade absoluta e recomendou atenção à qualidade do periódico, ao financiamento da pesquisa, aos conflitos de interesse e à trajetória dos pesquisadores. "Uma assessoria ou jornalismo bem feito tenta não criar manchetes que passem promessas falsas", afirmou.
Ao longo do encontro, Ana apresentou ferramentas para avaliar a qualidade de estudos, identificar fontes confiáveis e transformar pesquisas complexas em narrativas acessíveis sem comprometer a precisão dos resultados.
Pela manhã, Ana também conversou com pesquisadores e estudantes no encontro "Por dentro da publicação científica: o que os editores procuram". A atividade apresentou os bastidores da publicação científica sob a perspectiva de uma editora do Nature Portfolio e estratégias práticas para fortalecer manuscritos, da escolha do periódico à submissão, revisão por pares e aceite.
Sobre Ana Paula Donnelly
Ana Paula Donnelly é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde também concluiu o mestrado e o doutorado em Farmacologia, com ênfase em Neurociências. Após o doutorado, realizou pesquisa de pós-doutorado em saúde pública e saúde mental na University College Cork, na Irlanda.
Em 2018, ingressou na Springer Nature como Manuscript Editor das revistas BMC Psychiatry e BMC Psychology, atuando posteriormente como Coeditora da BMC Public Health. Atualmente, é editora Sênior da Nature Mental Health. Com experiência tanto na pesquisa acadêmica quanto na publicação científica, seus interesses incluem saúde mental, neurociências, determinantes sociais da saúde e divulgação científica.