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Ansiedade tira mais qualidade de vida das crianças brasileiras que qualquer doença física, aponta estudo liderado por psiquiatra do Moinhos de Vento

Levantamento com dados do Global Burden of Disease (GBD) estima que mais de 15 milhões de brasileiros de 5 a 29 anos convivam com pelo menos um transtorno mental

10/08/2026 Redação Fonte: Moinhos Critério Compartilhar:
Ansiedade tira mais qualidade de vida das crianças brasileiras que qualquer doença física, aponta estudo liderado por psiquiatra do Moinhos de Vento
Foto: Freepik

Desde os 5 anos de idade, nenhuma doença física tira mais qualidade de vida das crianças brasileiras do que a ansiedade. É o que mostra a análise mais abrangente já feita sobre saúde mental infantojuvenil no país, que comparou transtornos mentais com mais de trezentas outras condições de saúde monitoradas no Brasil. Os transtornos de ansiedade aparecem em primeiro lugar como causa de anos vividos com incapacidade em todas as faixas etárias analisadas, dos 5 aos 29 anos. A partir dos 15, a depressão assume o segundo lugar, e o impacto de ambas as condições é maior entre meninas e mulheres jovens.

O levantamento estima que mais de 15 milhões de brasileiros de 5 a 29 anos convivam com pelo menos um transtorno mental, e que 2,5 milhões preencham critérios diagnósticos para transtorno por uso de substâncias, como álcool ou outras drogas.

A pesquisa foi liderada pelo psiquiatra Christian Kieling, do Hospital Moinhos de Vento e professor de psiquiatria da UFRGS, e publicada na revista The Lancet Regional Health – Americas. É a primeira a detalhar essa realidade faixa etária por faixa etária, da infância ao início da vida adulta.

Entre os 5 e os 9 anos, mais de 10% das crianças brasileiras já preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental. A proporção sobe de forma constante ao longo da infância e da juventude e chega a quase 25% entre 25 e 29 anos, com média de 20% em todo o intervalo de 5 a 29 anos.

"Uma mensagem crucial deste estudo é a necessidade de implementar ações de proteção à saúde mental desde muito cedo, já na infância e na adolescência", afirma Kieling. "Os problemas de saúde mental nos jovens nem sempre apresentam os contornos de um diagnóstico formal, mas, mesmo sem esse diagnóstico, prestar atenção a esses sinais é essencial para evitar que eles se tornem um transtorno estabelecido."

O estudo também traça um retrato da mortalidade por suicídio entre jovens brasileiros. A taxa por 100 mil habitantes sobe de 1,24 na faixa de 10 a 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos. Ao todo, o levantamento estima 5.402 mortes por suicídio ao ano entre 10 e 29 anos no país, 77% delas entre rapazes.

"Os números de suicídio mostram uma diferença grande entre os sexos, que precisa orientar políticas específicas de prevenção voltadas a jovens do sexo masculino, um grupo historicamente pouco alcançado pelos serviços de saúde mental", complementa Claudia Buchweitz, pesquisadora e primeira autora do estudo.

O estudo revela ainda uma lacuna na produção de conhecimento. Para estimar a situação de toda a população brasileira de 5 a 29 anos, o GBD contou com apenas 66 fontes de dados nacionais, a maioria concentrada em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Praticamente não há dados de saúde mental infantojuvenil vindos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

"Esse volume limitado de estudos reflete e, ao mesmo tempo, contribui para a falta de atenção à saúde mental dos jovens no Brasil, com impactos negativos e de longo prazo para toda a sociedade", diz Claudia. "Mesmo com fontes limitadas, as análises são rigorosas e os dados são contundentes. Precisamos de ação, imediatamente."

Quem precisar de ajuda pode ligar para o CVV no 188, gratuito e disponível 24 horas, ou procurar um CAPS.

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